O acervo de bandolins do museu de instrumentos da EM-UFRJ: aspectos musicológicos

A cultura islâmica introduziu na Espanha e no sul da Itália diversos instrumentos musicais, entre eles o ancestral do bandolim. Resultado da cultura árabe que enriqueceu o Ocidente, as suas origens remetem a um pequeno instrumento em forma de pêra com o fundo arredondado, tendo sido utilizado na Europa Medieval do século X. Ao lado do ud (que significa “arco” ou “forma arredondada” e que mais tarde foi desenvolvido na Europa como lute ou alaúde com diversos tamanhos e números de cordas), esse instrumento de pequenas dimensões era conhecido na Europa, pelo menos a partir do século XIII, como quitaire, quinterne ou guisterne em francês; gyterne (e mais tarde gittern) em inglês; quinterne em alemão; guitarra em espanhol e chitarra ou chitarino em italiano. Sabe-se que até meados do século XVI estes termos eram utilizados para designar diversos instrumentos de corda. A partir de então, passou a ser definitivamente uma referência à família da guitarra. Não é raro localizar em dicionários de música algum tipo de associação entre o bandolim e a família dos alaúdes, mas como podemos observar recentes pesquisas têm focalizado a história sob outro ângulo, afirmando que tem maior relação com a guitarra, ou seja, com o violão. Apenas dois instrumentos daquele período sobreviveram. Um deles, do século XIV, pertence à coleção Irwin Untermyer, de Nova York, e o outro (c. 1450) é de propriedade de Hans Oth, de Nuremberg.   O nome bandolim, adotado no Brasil, mandoline na Espanha, França e Alemanha, e mandolin em inglês, tem sua origem na palavra mandolino, diminutivo de mandola, um dos ancestrais do bandolim durante a Renascença. O termo mandolino aparece pela primeira vez num documento italiano antes da segunda metade do século XVII. Entre os papéis do famoso Cardeal Francesco Barberini em Roma, foi descoberta uma conta paga a um luthier, datada de 1634, quando o construtor e reparador listava reparos de “mandolini”, lural de mandolino.  Mas uma importante informação acerca da construção e fixação da palavra mandolino vem, nada mais nada menos que, através de Antonio Stradivari. O grande construtor de violinos dedicava-se também à construção de alaúdes, guitarras, violas e bandolins. Felizmente, muitas de suas plantas com medidas e observações detalhadas encontram-se no Museo Stradivariano em Cremona. Além disso, anotações de seu próprio punho revelam que na Itália havia pelo menos sete modelos diferentes de bandolim como, por exemplo, o mandolino coristo.   Os anos que corresponderam à chamada Belle Époque na França, à Era Wilhelmine na Alemanha e aos períodos Vitorianos e Eduardianos na Inglaterra, foram um tempo de grande popularidade do instrumento na Europa, América do Norte e América do Sul. Milhões de instrumentos foram vendidos, milhares de músicas para bandolim foram compostas, arranjadas e publicadas e, durante as primeiras décadas do século XX, o bandolim tornou-se um dos instrumentos mais tocados nas principais cidades da Europa. Havia um interesse econômico considerável ao seu redor, envolvendo editoras de partituras e de métodos, lojas de artesanato e de artes plásticas em geral, sem falar nos luthiers e nas lojas de instrumentos musicais. Surgiram muitos clubes, federações e sociedades entre amigos ou em família dedicados ao bandolim, além de revistas especializadas no instrumento para o recreio dos músicos diletantes. Nas artes plásticas, o bandolim teve também uma especial repercussão, sobretudo no movimento conhecido como Cubismo. Pablo Picasso (1881-1973), Georges Braque (1882-1963) e Juan Gris (1887-1927) utilizaram freqüentemente a imagem de violões e bandolins, instrumentos que eram populares nos cafés freqüentados por estes artistas. A imagem nostálgica de um Arlequim ou de um Pierrot tocando bandolim napolitano era um tema freqüente, e além deste, era comum também um tipo de pintura (iniciado pelo pintor Jean-Baptiste-Camille Corot, 1796-1875) representando jovens mulheres vestindo trajes tipicamente italianos em atitude silenciosa e contemplativa segurando um bandolim. Não obstante, ao longo destes períodos, aumentava também o interesse pelo bandolim no meio musical de concerto na Europa. Técnicas eram inovadas e aprimoradas, compunha-se e ampliava-se o repertório de concerto, métodos eram publicados e perto do final do século XIX grandes mestres de bandolim obtinham aclamação internacional. O nível técnico na prática do instrumento chegou a um patamar nunca antes atingido. Por conta deste fenômeno musical e social, surgiu na Europa uma grande moda entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século seguinte, focalizando o bandolim como um dos instrumentos mais preferidos da sociedade diletante.  Durante este período, como é amplamente sabido, as principais cidades do Brasil, sobretudo, Rio de Janeiro e São Paulo procuravam acompanhar os costumes europeus em voga. De fato, o Rio de Janeiro, como cidade cosmopolita que mantinha um forte vínculo com a Europa através de um trabalho de constante atualização de modas e costumes, absorveu a moda do bandolim. Tocar este instrumento tornou-se uma verdadeira febre, um sinônimo de status elevado. Mais do que  um fenômeno musical, foi uma mobilização social. Este modismo, tendo nascido no país de origem do bandolim, Itália, tomou proporções incríveis. Desde a segunda metade do século XVIII vinha se tornando na Europa um dos instrumentos preferidos por jovens e por senhoras, aparecendo freqüentemente em pinturas e pequenas esculturas de ouro, prata, bronze ou em porcelanas. A trajetória do bandolim no Brasil limitou a utilização do instrumento de forma quase exclusiva no rico gênero musical do Choro. Entretanto, conforme mencionado, o repertório tocado no bandolim na sociedade carioca tinha como referência principal, os costumes musicais em voga na Europa. Sendo assim, antes do nascimento do Choro, o que se tocava no bandolim na cidade do Rio de Janeiro eram gêneros importados: Valsas, Mazurcas, Polcas, Reveries, Berceuses, Meditações, Divertimentos, Fantasias, Serenatas, Prelúdios, Árias, trechos de óperas, entre outros tipos de música característicos do fim do século XIX e início do século XX. Como lembrança desta época, localiza-se na Divisão de Música e Arquivo Sonoro da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro um acervo de 122 partituras, todo ele escrito originalmente para bandolim com acompanhamento de piano. Trata-se de um repertório bastante raro e praticamente desconhecido no âmbito do bandolim no Brasil. O acervo de bandolins do Museu de instrumentos da EM-UFRJ pertencem a este período e a este modismo europeu importado pela sociedade brasileira.